Relação da Mídia NINJA com um dos maiores eventos sobre o Brasil no exterior começou de forma curiosa, a partir de contato com o ativista e acadêmico André Menezes

Nesta semana, a equipe da Mídia NINJA recebeu pela segunda vez um convite para participar da Brazil Conference 2026, realizada entre os dias 27 e 29 de março, em Cambridge. Representando a Floresta Ativista, Oliver Kornblihtt esteve presente após contato com André Menezes, diretor de Comunidade, Cultura e Bem-estar do evento, fortalecendo pontes entre territórios e ampliando diálogos sobre cultura, comunicação e transformação social.
Hoje, a Brazil Conference se consolidou como um dos principais fóruns de debate sobre o futuro do Brasil no exterior, reunindo lideranças, pesquisadores e agentes de transformação. Mas a presença da Mídia NINJA vai além da cobertura. A relação com o evento começou antes, em 2022, quando os caminhos da rede se cruzaram com os de Andre Menezes, homem preto e periférico do bairro Pimentas, em Guarulhos, que vem transformando a forma como o fórum se organiza, ampliando sua diversidade e conexão com diferentes realidades do país.
Com apenas 14 anos, Andre Menezes já trabalhava em uma feira livre em Guarulhos para garantir seu sustento e financiar seus estudos, enfrentando desde cedo os desafios que marcam a realidade de muitos jovens brasileiros. Na contramão das estatísticas de evasão escolar, que atingem majoritariamente jovens negros, ele seguiu acreditando no poder transformador da educação e, após uma trajetória marcada por esforço e persistência, aos 34 anos conquistou o título de mestre em Administração pela Harvard University, uma das instituições mais prestigiadas do mundo.

Após ter sua história contada pela Mídia NINJA, Andre reconheceu a importância de dar visibilidade a trajetórias que, assim como a sua, muitas vezes ficam fora das narrativas tradicionais. A partir dessa conexão, estreitou sua relação com o veículo, tornou-se colunista e passou a entrevistar e contar histórias de pessoas negras que vêm construindo caminhos extraordinários no Brasil e no mundo, ampliando vozes e inspirando novas possibilidades aos jovens.
Em 2024, na sua primeira Brazil Conference como colunista da Mídia NINJA, Andre Menezes se deparou com uma estrutura que gerou frustração não apenas nele, mas também em outros participantes. Em um ambiente que deveria promover inclusão, diversidade e inovação, a programação se mostrou pouco diversa e marcada por um perfil elitizado, além de ter sido palco de um caso de racismo que ganhou repercussão internacional, evidenciando contradições dentro do próprio evento.
Determinado a transformar esse cenário, Andre retornou no ano seguinte à conferência em um novo papel. A convite da organização, assumiu como o primeiro chefe de diversidade do evento e passou a atuar diretamente na reconfiguração de sua estrutura. Uma de suas primeiras decisões estratégicas foi fortalecer a presença de vozes plurais, aproximando ainda mais a conferência da Mídia NINJA. “Uma das primeiras coisas que eu fiz quando assumi o cargo foi incluir a Mídia NINJA, porque percebi que não tínhamos veículos de imprensa plurais participando. Como meu papel era ampliar a diversidade em todos os aspectos, para além dos palestrantes, trazer a Ninja foi fundamental para fortalecer essa mudança”, destaca.
Um caso de racismo dentro de um evento tão importante para a imagem brasileira no exterior foi um sinal claro de que mudanças eram urgentes. Andre Menezes relembra que se viu nas pessoas afetadas e destaca que, a partir desse episódio, a Brazil Conference compreendeu a necessidade de evoluir: “a conferência entendeu que precisava mudar, aprender e crescer, e agora estamos nesse caminho”. O atual diretor de Comunidade, Cultura e Bem-estar também reforça que esse processo é contínuo: “é o segundo ano que estou neste cargo, mas espero que nos próximos anos a gente continue evoluindo, porque é um aprendizado constante”.

A Mídia NINJA, hoje um dos maiores veículos de comunicação alternativa do Brasil, teve um papel fundamental nesse processo ao dar visibilidade ao caso e trazer diferentes perspectivas sobre o ocorrido. Mais do que expor a situação, o veículo contribuiu para ampliar o debate e apontar caminhos de transformação, destacando a importância de repensar estruturas e práticas dentro do evento, foi a partir do olhar de Andre, então colunista, que a cobertura ajudou a tensionar o cenário e reforçar a necessidade de mudanças reais e duradouras.
Andre Menezes relembra que, na época, foi um dos primeiros representantes da imprensa presentes no local a decidir compartilhar o caso, ainda em 2024. “Eu vi o que estava acontecendo e decidi publicar, mas ao mesmo tempo entendi que era preciso manter a conferência, porque acredito que a Brazil Conference é um espaço muito importante. É um espaço de debate, onde podemos trazer pessoas do Brasil para Harvard University, gente que está causando impacto real no país. Naquele momento, achei crucial que a gente tentasse evoluir a partir do que aconteceu e construir uma conferência mais plural, e não simplesmente acabar com ela”, afirma.
Ele também celebra os avanços já conquistados nesse processo de transformação: “E que bom que estamos conseguindo”. Andre destaca ainda a importância de marcos recentes, como a presença de Merllin Batista, primeira mulher preta e nortista a presidir a comunicação do evento, como um símbolo concreto das mudanças em curso. Para ele, essas conquistas representam não apenas avanços institucionais, mas também o fortalecimento de um compromisso contínuo com diversidade, inclusão e representatividade.

A comunicação em rede, afetiva e ativista mostra sua potência a partir de ações que, embora pareçam pequenas, são capazes de ressignificar estruturas já rígidas de grandes eventos e espaços de poder, como a Brazil Conference. Foi nesse cruzamento de histórias, trajetórias e propósitos que a Floresta Ativista chegou a Harvard University, fortalecendo a presença de narrativas diversas e ampliando os sentidos da participação brasileira no exterior.
Para celebrar esse movimento e as transformações em curso, Andre Menezes reforça a importância da continuidade dessa presença: “eu tenho certeza que, no próximo ano e nos seguintes, a Mídia NINJA precisa continuar, porque é um veículo muito plural, e precisamos de vocês aqui!”, finaliza simbolizando não apenas o reconhecimento do papel da mídia independente, mas também o compromisso com a construção de espaços cada vez mais diversos, abertos e representativos.







