
Alimentação não é apenas ingerir alimentos, é um pacto de continuidade com a vida. É a partir dessa perspectiva que atua a Xepa Ativismo, projeto de ativismo alimentar da Floresta Ativista. A iniciativa busca aproximar as pessoas de uma alimentação ética, acessível e libertadora, promovendo reflexões e práticas que conectam comida, território e justiça social.
O projeto nasceu em 2015, idealizado por Bianca Lima, com o objetivo de contribuir para a construção de um novo mundo, em que o acesso a uma alimentação segura e de qualidade seja um direito garantido e democratizado para todos. Ao longo de sua trajetória, Bianca passou a compreender algo profundamente transformador: se alimentar também é um ato político, que envolve afetos, cultura e resistência. A partir dessa percepção, a Xepa Ativismo começou a conectar comida, território e consciência social.
Pelo Instagram @xepaativismo, são compartilhadas diariamente novas formas de olhar para a comida que está no prato – ou, muitas vezes, para a ausência dela. O perfil propõe uma reflexão que vai além da culinária contemporânea marcada por ultraprocessados e alimentos fora de safra, na alimentação ética e afetiva defendida pelo projeto, ganham destaque os alimentos regionais, a culinária tradicional e os ingredientes de época, valorizando práticas acessíveis à população e que nutrem tanto o corpo quanto os vínculos afetivos e culturais.
No Brasil, em 2025, cerca de 6,8 milhões de pessoas viviam em situação de insegurança alimentar grave, segundo o IBGE. Na luta para enfrentar a fome no país, as políticas públicas são fundamentais, mas iniciativas como a Xepa Ativismo também apontam caminhos complementares. O projeto propõe olhar para o que muitas vezes passa despercebido, as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) que crescem nas cidades cercadas de asfalto, ou o excedente de alimentos descartados por comércios e feiras, transformando esses recursos em possibilidades reais de acesso à comida de qualidade para populações de baixa renda.
Todo movimento transformador começa pelo autoconhecimento. Foi a partir das experiências coletivas nas Casas NINJA e na rede Fora do Eixo que Bianca encontrou um novo sentido para o ato de cozinhar e para a importância da alimentação. Vivendo em diferentes regiões do país, ela passou a abraçar a diversidade alimentar brasileira e a explorar os múltiplos significados da comida em cada território. Em um país rico em biodiversidade e profundamente marcado por raízes indígenas e populares, a culinária tradicional muitas vezes é apagada pela lógica do consumo industrial, e é justamente esse saber ancestral que a Xepa Ativismo busca resgatar, valorizar e compartilhar.
O perfil também se tornou um espaço de luta ativa pela valorização da qualidade alimentar, uma pauta urgente em um país que figura entre os maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Mais do que um canal de divulgação, a página funciona como ponto de encontro entre ativistas de diferentes regiões do Brasil, que se fortalecem por meio da coletividade, da troca de informações e de aprendizados compartilhados.
Além da atuação nas redes, o projeto também promove oficinas formativas, encontros e ações coletivas, criando espaços de reflexão e prática sobre alimentação consciente, cultura alimentar e justiça social. Essas atividades possibilitam aproximar diferentes públicos do debate sobre o que comemos e de onde vêm os alimentos que chegam à mesa, ao compartilhar saberes, sabores e experiências, o projeto fortalece uma rede de pessoas interessadas em transformar a relação com a comida e com os territórios que a produzem.
Em um mundo atravessado por uma crescente crise climática, a alimentação ética se torna também uma importante ferramenta de enfrentamento aos impactos ambientais. Compreender a agricultura para além da lógica do produto e do consumo imediato é um passo essencial nesse processo. Educar para uma relação mais consciente com a terra, com os ciclos naturais e com os alimentos pode parecer um gesto pequeno, mas representa um movimento fundamental na construção de um mundo mais equilibrado, onde os seres humanos coexistam com a natureza de forma justa e sustentável.
