Mídia NINJA vence o CCNow Journalism Awards 2026 com investigação sobre a COP30

por | out 7, 2026

Série “Cop In, Cop Out” foi premiada na categoria Grandes Projetos e Colaborações por revelar bastidores e contradições da conferência do clima em Belém

Foto: TBIJ

A Mídia NINJA é uma das vencedoras do CCNow Journalism Awards 2026, prêmio da rede Covering Climate Now (CCNow) que reconhece trabalhos de excelência na cobertura jornalística da crise climática. O reconhecimento foi concedido à série “Cop In, Cop Out”, investigação internacional sobre a COP30, realizada em Belém (PA), na categoria Grandes Projetos e Colaborações (Large Projects & Collaborations).

Coordenado pelo Bureau of Investigative Journalism (TBIJ), do Reino Unido, o projeto reuniu veículos e organizações jornalísticas da América Latina, África e Europa para investigar, a partir de diferentes territórios e perspectivas, os bastidores, as contradições e os impactos da conferência do clima.

A participação da Mídia NINJA no projeto aconteceu a partir de um convite do TBIJ, que propôs uma investigação para ouvir 100 vozes indígenas de diferentes regiões do mundo. No Brasil, a equipe realizou as entrevistas a partir da Casa NINJA Amazônia, em Belém, criada no contexto da COP30 para fortalecer a articulação entre jornalismo, ativismo, cultura e movimentos sociais.

A contribuição da equipe brasileira, no entanto, foi além da realização das entrevistas. A partir dos relatos das lideranças indígenas, a Mídia NINJA desenvolveu, em parceria com grafiteiras de Belém, um mural na Casa NINJA Amazônia para transformar as vozes reunidas pela investigação em uma intervenção artística. A equipe também participou da construção da linha editorial do projeto, incorporando à investigação o contexto brasileiro e a experiência acumulada junto aos movimentos indígenas do país e da América Latina.

Para o fotógrafo e cofundador da Mídia NINJA, Oliver Kornblihtt, a diversidade de veículos e perspectivas envolvida na investigação tornou o processo de construção editorial especialmente relevante. A experiência da Mídia NINJA com movimentos indígenas brasileiros e latino-americanos contribuiu para ampliar a abordagem e levar o trabalho para além do formato tradicional de reportagem.

“Foi um processo muito interessante porque a edição tem um papel importante para conseguir centrar tantas mídias diferentes e tantas lideranças indígenas diferentes. Nossa experiência com os movimentos indígenas do Brasil e da América Latina trouxe um lugar interessante de construção, levando isso para além da entrevista e para uma intervenção artística urbana”, explica.

A estratégia também permitiu explorar outras linguagens jornalísticas e formas de circulação das histórias. “Nossa presença ajudou a sair do tradicional de uma reportagem jornalística clássica. A gente provocou e ampliou para outras linguagens”, completa Oliver.

Na investigação, a equipe mostrou, por dentro e por fora da conferência, pontuações que alimentam os questionamentos sobre a capacidade das cúpulas climáticas da ONU de responder aos desafios atuais. Em um dos eixos, o trabalho revelou como recursos de contribuintes britânicos destinados à ajuda internacional chegaram a empresas ligadas à indústria de combustíveis fósseis e a fabricantes de carros elétricos de luxo pertencentes a bilionários.

Fora dos espaços oficiais da COP30, os jornalistas ouviram 100 pessoas indígenas de florestas tropicais de diferentes países, que relataram o avanço da violência e dos deslocamentos associados à mineração e à expansão da agropecuária, em um contexto de agravamento dos impactos climáticos sobre seus territórios.

A investigação também analisou empresas que utilizaram a conferência como espaço para fortalecer sua imagem pública, entre elas a JBS, patrocinadora da COP30, e uma empresa do agronegócio fornecedora de algodão para marcas como Nike e Adidas, cujas lavouras avançaram sobre territórios reivindicados por povos indígenas.

Para os jurados do CCNow Journalism Awards, o projeto apresenta uma abordagem renovadora e relevante sobre as COPs, que nos últimos anos teriam perdido parte do interesse inclusive entre repórteres especializados em clima. O trabalho foi descrito como um conjunto de reportagens rigoroso e de grande impacto, considerado essencial para profissionais que atuam na área climática.

Além da Mídia NINJA e do TBIJ, a colaboração reuniu El País (Colômbia), La Región (Bolívia), Platform to Protect Whistleblowers in Africa (França e Senegal), Repórter Brasil, O Joio e o Trigo e Climate Home News (Reino Unido).

Para Oliver, o reconhecimento também deve ser compreendido como resultado de um processo que começou antes da realização da COP30 e envolveu a criação de espaços de articulação, redes de colaboração e novas formas de fazer jornalismo a partir da Amazônia.

“Esse prêmio mostra a relevância global da nossa ação na COP e a importância do que construímos como processo, não só durante a conferência, mas meses antes, com a criação da Casa NINJA Amazônia, a cobertura colaborativa e o fortalecimento de uma floresta ativista global. Esse prêmio é resultado de toda essa construção e desse acúmulo”, afirma.

Segundo o fotógrafo, o reconhecimento também reforça uma característica que está no centro da atuação da Mídia NINJA: a construção colaborativa do jornalismo. “É muito característico do nosso caminhar fazer jornalismo de um jeito colaborativo, e isso está sendo reconhecido mundialmente. Isso é muito legal”, conclui.

Em sua sexta edição, o CCNow Journalism Awards recebeu mais de 1.200 inscrições de jornalistas de dezenas de países. Um painel formado por 120 jornalistas de mais de 30 países e territórios selecionou os vencedores em 14 categorias temáticas, com até três trabalhos premiados em cada categoria. A premiação também contempla as categorias Jornalista do Ano, Jornalista Emergente do Ano e Prêmio pelo Conjunto da Obra.

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