Quem conta a história de Minas? Projeto ‘Festeja Tradição Mineira’ fortalece as voz das comunidades quilombolas e indígenas do estado

por | set 24, 2026

Em 2026, o projeto levou oficinas de comunicação a quilombos e aldeias para que a cultura mineira seja contada por quem a faz

Foto: Minas Ninja

Minas Gerais é conhecida nacionalmente pela história da mineração, pela força política e pelo poderio industrial, mas o estado também respira cultura: nas artes, nas danças, na culinária e no jeito único de levar a vida. Manifestações como a Folia de Reis e a Congada estão entre os patrimônios mais importantes de Minas, e muitos desses festejos são reconhecidos pelo Iphan como patrimônio imaterial.

Essa herança, tão rica e significativa para o povo mineiro, é anterior à colonização. Nasceu nas comunidades quilombolas e indígenas e ganhou novas camadas de interpretação e sincretismo a partir do início do ciclo do ouro. Minas possui uma das culturas mais ricas do país, e o ‘Festeja Tradição Mineira’ existe para celebrar essa diversidade, valorizando as narrativas produzidas por jovens de dentro dos territórios sobre as tradições que suas comunidades mantêm vivas há séculos.

O projeto Nasceu em 2020, de uma parceria entre a Mídia Ninja, Minas Ninja e Ninja Fotos,  quando a pandemia de covid-19 impôs restrições que impediram a realização dos tradicionais festejos em comunidade pelas ruas das cidades mineiras. Diante dessa perda, surgiu a ideia de resgatar essa memória e de celebrar datas importantes para a história do estado. A primeira edição foi uma exposição virtual e projetada, com obras de artistas mineiros que retratam os costumes, os sentimentos e a ancestralidade das festas e manifestações culturais de Minas.

Desde então, o Festeja realiza exposições, debates, oficinas e coberturas colaborativas com o objetivo de resgatar e dar visibilidade à memória e às expressões ancestrais que geraram a identidade cultural mineira.

Foto: Minas Ninja

Festeja Tradição Mineria passa por 4 novas comunidades em 2026

Neste ano, o Festeja segue em circuito por territórios quilombolas e indígenas. A cada parada, são realizadas oficinas de comunicação, fotografia, vídeo e redes sociais voltadas às juventudes, para que a própria comunidade registre seu cotidiano, sua memória e suas tradições a partir do seu olhar.

A primeira parada de 2026 aconteceu em maio, em Belo Horizonte, no Quilombo Mangueiras. Reconhecido em 2018 como patrimônio cultural do município pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte, o quilombo carrega uma história centenária de resistência, memória e relação profunda com o território. Sua identidade atravessa mais de cem anos e está ligada à formação de Sabará, Santa Luzia e da região de Venda Nova.

Hoje, 32 famílias vivem em uma área de 19,9 hectares e seguem resistindo a constantes tentativas de invasão, à especulação imobiliária e ao descaso do poder público. O território tem grande importância ambiental, com nascentes, vegetação nativa, fauna e flora preservadas. As oficinas em Mangueiras buscam valorizar a memória dos antepassados que permanece viva no modo de ocupar a terra, nas práticas cotidianas e na preservação das tradições, e agora também pode ser contada com imagens e textos produzidos pelos próprios moradores.

A segunda etapa ocorreu em junho, em São João das Missões, no Território Indígena Xakriabá. Marcado por disputas políticas em torno da demarcação, o povo Xakriabá sobreviveu desde o século 18 às frentes pecuaristas e garimpeiras e, até hoje, luta pela ampliação de suas terras demarcadas. Na região, as atividades reuniram jovens e comunicadores para discutir estratégias de produção de conteúdo e o uso das plataformas digitais na valorização da cultura e das lutas do povo. Em seguida, as oficinas avançaram para fotografia e vídeo, com a troca de ferramentas para que a comunidade registre seu cotidiano, sua memória e suas tradições.

Ainda em junho, o projeto chegou ao povo Krenak, em Governador Valadares. Conhecidos pela relação profunda com o Rio Doce, que chamam de Watu e consideram um ser vivo e sagrado, os Krenak são guardiões de uma rica herança cultural. Eles fortalecem sua língua, seus conhecimentos ancestrais e a defesa do território, mesmo diante dos impactos do rompimento da barragem de Fundão, que atingiu diretamente a comunidade e seu modo de vida.

As oficinas de fotografia, vídeo, redes sociais e produção de conteúdo foram pensadas como espaços de troca e fortalecimento cultural, ampliando vozes que historicamente resistem e protegem seus territórios, com o objetivo de dar autonomia à juventude indígena para registrar, preservar e compartilhar suas próprias histórias, saberes e tradições.

A última etapa aconteceu em julho, na Aldeia Pataxó Muã Mimatxi, em Itapecerica. Ali, o projeto encontrou um povo que traz a ancestralidade e o respeito à terra no centro de sua cultura, marcada pela conexão com a natureza e com os Yãmixoop, espíritos da mata e protetores, pela valorização dos conselhos dos anciãos e pela retomada constante do Patxohã, a língua originária e de resistência dos Pataxó.

Rituais como o Awê, as pinturas corporais e o artesanato com sementes e elementos da mata reafirmam a identidade e as memórias da comunidade. As oficinas entram como ferramentas para potencializar a juventude local, garantindo que os próprios indígenas sejam os narradores de sua história, da defesa do território e de suas tradições.

Foto: Festeja Tradição Mineira

Outras edições do Festeja Tradição Mineira

A primeira edição do Festeja Tradição Mineira aconteceu em 2020, em resposta ao isolamento imposto pela pandemia. Uma convocatória pela hashtag #FestejaTradiçãoMineira reuniu centenas de fotos e vídeos de festejos de todo o estado, projetados em diversas cidades de Minas e do país. Vinte artistas foram selecionados para compor uma exposição virtual permanente, que segue disponível no site do projeto.

Em 2022, com o retorno dos festejos às ruas, uma nova convocatória, pela mesma hashtag, convidou o público a registrar o movimento, as cores e as expressões das tradições mineiras de volta às cidades. O Festeja foi apresentado na abertura do Festival Nacional de Cinema, em Ribeirão das Neves, com roda de conversa, e realizou duas coberturas colaborativas: em Viçosa, no Festival Troca de Saberes, e em Montes Claros, nas Festas de Agosto. Houve ainda coberturas em São Sebastião do Oeste, Belo Horizonte, Araguari, Itabira, Divinópolis e Passos.

Foto: Festeja Tradição Mineira

Na terceira edição, em 2024, o Festeja se uniu ao Minas LAB, projeto da Minas Ninja criado em 2018 que já havia percorrido 29 municípios mineiros com um circuito de formação em comunicação e produção cultural. Da união surgiu o Festeja Minas LAB, com a missão de preservar a memória tradicional das celebrações das cidades mineiras e de capacitar comunidades quilombolas e indígenas em comunicação e produção audiovisual.

Com mais de 15 comunidades quilombolas e indígenas visitadas, o projeto se transformou ao longo dos anos. Adaptou suas estratégias para se aproximar dos espaços tecnológicos, da juventude e das questões da atualidade, com o objetivo de manter viva a história e a cultura mineira e de levar sua celebração e valorização para além dos territórios. Nem todos podem viver de perto a realidade dessas comunidades, mas a comunicação comunitária permite que suas vozes sejam ouvidas e apreciadas, e que a cultura permaneça viva. 

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