Gravado durante a cobertura do FOSPA, o curta-metragem mostra como a mineração ilegal contamina os rios sagrados dos povos kichwa de Napo

A Casa NINJA Amazônia lançou, no último domingo (30), o documentário “Las Aguas de Napo — Especial NINJA no Equador”. O curta de pouco mais de 11 minutos foi gravado na província de Napo, no Equador, durante a cobertura do XII Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA). O filme destaca a importância da água como fonte de vida e elemento central da cosmologia dos povos indígenas da região, e como esta riqueza se transforma também em ameaça.
Napo é uma das 24 províncias do Equador, na região amazônica do país, no centro-norte do território equatoriano. Cerca de metade do seu território ocupa a Cordillera Oriental dos Andes, o que faz sua altitude variar de pouco mais de 300 metros, na planície amazônica, a 3.050 metros, em Papallacta, sua localidade mais fria. É cortada por rios como o Napo, o Misahuallí, o Quijos, o Coca, o Jatunyacu e o Anzu, e tem em Tena sua capital.
Assista agora:
Um rio que dá vida — e adoece
Ao longo do filme, moradoras e moradores das comunidades de Napo relatam a relação profunda que mantêm com os rios da região. “A água nos dá vida. Para nós, é muito importante a relação que temos com ela. Por isso é importante protegê-la porque a água é parte do território, da vida. As comunidades vivem perto da água porque é dali que pescamos e bebemos”, diz Leo Cerda, ativista kichwa de Napo.
Essa dependência é também o que torna as comunidades mais vulneráveis. “O ser humano, por natureza, se instala às margens dos rios pelo acesso à água segura. E, na Amazônia, a grande maioria das comunidades não tem acesso a água encanada, muito menos a água potável. Depende dos rios, e esses rios hoje estão carregando mercúrio, cianeto, hidrocarbonetos e outros metais pesados que estão envenenando as comunidades”, afirma Pepe Moreno, ativista do movimento Napo Ama La Vida. Segundo ele, estudos feitos em parceria com a Universidad San Francisco já identificaram resíduos de mercúrio e cianeto no cabelo, na urina e no sangue de famílias das comunidades de Tena, Puerto Napo e Chontapunta.
Denunciar tem preço
O documentário também dá voz ao medo que acompanha quem denuncia a mineração ilegal em Napo. “Pela via institucional, de forma legal, as denúncias não avançam. Em compensação, recebemos ameaças, ligações, mensagens, intimidações, contra nós e contra nossas famílias. A maioria das lideranças e dos rostos visíveis de Napo está exposta a isso”, afirma Pepe. Uma moradora, que prefere não ser identificada, descreve ter passado a buscar água em pequenos igarapés para beber e lavar, já que o rio próximo de casa está contaminado.
Em outro trecho, uma família entrevistada, que também optou por não ser identificada por questões de segurança, relata que garimpeiros já invadiram parte de suas terras, derrubaram área de mata e chegaram a molestar suas filhas. A denúncia foi levada às autoridades locais. O documentário também aponta que uma mesma empresa mineradora que tentou represar o rio Piatúa agora avança sobre o rio Jatunyacu, com um projeto de mineração dentro de uma área de parque nacional na região.
“Mais da metade do ouro vendido no mercado internacional que passa pelo Banco Central do Equador é ilegal. É uma mercadoria ilícita, uma das formas mais fáceis de lavagem de dinheiro”, diz Sofia Jarrín, ativista ambiental da organização Amazon Watch.

Serena: uma comunidade que resiste
Na segunda parte do documentário, a equipe segue até a comunidade de Serena, uma das sete comunidades que, juntas, mantêm livres de mineração cerca de 17 mil hectares em Napo. O filme resgata um episódio marcante dessa resistência: em 2020, quando uma mineradora ofereceu dinheiro à comunidade para explorar ouro em seu território, foram as mulheres de Serena que se recusaram a negociar. Da recusa nasceu a Yuturi Warmi, guarda indígena formada por 35 mulheres que segue protegendo o território até hoje.
O documentário acompanha ainda o Wayusa Upina, ritual ancestral do povo kichwa do Alto Napo, praticado há gerações antes do amanhecer — tradicionalmente a partir das 3h da manhã. As famílias se reúnem ao redor do fogo para preparar e beber a infusão de wayusa (guayusa), planta amazônica estimulante, em um momento de interpretação de sonhos, limpeza espiritual e planejamento das atividades do dia, como pesca, caça e trabalho na roça. “Para nós, é um ato cerimonial, nos conectamos com nossos sonhos, com o território, falamos sobre o presente, o passado, o futuro, a história, os sonhos. Para o povo kichwa, o sonho é a única conexão que temos, como seres humanos, com o mundo espiritual. É por meio dele que nos conectamos com o território, com as energias, com o espírito”, explica Leo Cerda.
O filme mostra também como as crianças e jovens da comunidade — chamados de Yaku Churi, ou filhos do rio — participam de um projeto que usa a água como esporte e turismo comunitário nas corredeiras do rio Jatunyacu. Os mesmos jovens atuam no monitoramento ambiental contra o garimpo ilegal na região, que meses antes havia sido alvo de uma operação militar que destruiu dragas e maquinário clandestino no local.

Uma emergência de Napo, uma emergência mundial
As águas de Napo desembocam no rio Amazonas, atravessando o Peru e o Brasil, nos estados do Amazonas e do Pará. A Mídia NINJA foi até lá, junto a jornalistas e ativistas ambientais, para ajudar a denunciar o que descreve como a maior expansão de mineração ilegal na região nas últimas quatro décadas. “A emergência de Napo é uma emergência mundial”, resume a narração final do filme.
O contexto retratado no documentário dialoga diretamente com os dados divulgados pela Federação de Organizações Indígenas de Napo (FOIN) durante o FOSPA: mais de 1.700 hectares afetados pela mineração entre 2017 e 2024 na província, sendo 635 hectares na bacia do rio Anzu e 502 hectares na bacia do rio Jatunyacu, além de 31.521 hectares hoje sob concessão de pequena mineração de ouro, distribuídos em 146 concessões — isso mesmo após o governo equatoriano ter suspendido atividades de mineração na província em fevereiro de 2026 e as Forças Armadas terem destruído dragas e acampamentos ilegais no rio Jatunyacu em junho do mesmo ano.
