O que a gente foi fazer em Cannes?

por | maio 27, 2026

Por Ana Pessoa

Segundo ano consecutivo da Cine Ninja no Festival de Cinema de Cannes. A sensação foi bem diferente da vivida no ano anterior. Em 2025, o Brasil atravessava o festival por inteiro: disputa da Palma de Ouro, país de honra do Marchè, presença em diferentes mostras e festas, em encontros aleatórios pelas ruas da cidade. Tinha uma energia muito forte em torno do cinema brasileiro que vinha de uma crescente com o filme ‘Ainda Estou Aqui’ e o início da trajetória de sucesso de ‘O Agente Secreto’ (apenas citando essas, além de muitas outras produções maravilhosas).

2026 já senti outro clima. Uma Cannes mais ‘tradicional’, vamos dizer assim… com um cinema europeu muito forte nas principais mostras e uma presença brasileira mais espalhada, aparecendo em algumas co-produções, nas negociações do Mercado, em algumas mostras paralelas.

Até por isso foi interessante voltar esse ano e reviver o festival a partir de outras experiências.

Sabemos que Cannes não é só um festival de cinema. Durante doze dias, a cidade se transforma no principal centro do audiovisual do planeta. É onde se encontram realizadores, distribuidoras, fundos, programadores, jornalistas, artistas, ativistas e agentes de mercado de diferentes partes do mundo. Um território onde o cinema existe como linguagem, indústria, disputa política e imaginação de futuro.

Mas não dá pra deixar que essa ‘imaginação’ fique limitada ao ‘intelecto europeu’, sem de fato produzir, exibir e distribuir outras histórias. Que história conta ‘Ben’Imana’, de Marie-Clémentine Dusabejambo, primeira cineasta de Ruanda a competir em Cannes, que conquistou a Caméra d’Or? O que apresenta ao mundo ‘Elefantes na Névoa’, do Nepal, de Abinash Bikram Shah, com coprodução brasileira, premiado pelo Júri em Un Certain Regard? Ou o chileno ‘La Perra’, que tem Selton Mello no elenco e venceu a Palm Dog no festival? De onde vêm essas imagens, o que carregam dos seus territórios, das suas línguas, das suas formas? É isso que queremos ver, conhecer, potencializar. 

Cannes também expõe suas tensões e desigualdades. Quase tudo funciona a partir do acesso restrito: espaços privê, encontros fechados, credenciais, relações de poder e redes já estabelecidas. Mesmo assim, há essa presença pulsante de cinemas do Sul Global atravessando as barreiras. Produções africanas, asiáticas, latino-americanas. Cineastas haitianos, delegações indígenas, realizadores independentes ocupando e se projetando nessa cena do cinema contemporâneo. 

Nesse contexto, algo fica cada vez mais claro: a trajetória que construímos há quase 20 anos, desde o Fora do Eixo até a Cine Ninja, nos coloca num lugar muito potente nesse ecossistema. Não somos só um veículo de cobertura. Somos comunicação, exibição, produção, formação e articulação. Temos sala de cinema, conectamos cineclubes, desenvolvemos campanhas, estruturamos distribuição. Em breve, plataforma de streaming também.

Saímos dessa 79ª edição com um desejo ainda mais concreto: construir uma Casa Cine Ninja em Cannes 2027. Um espaço de encontro e articulação do Sul Global no centro do principal festival de cinema do mundo, reunindo movimentos sociais, comunicadores, cineastas, povos indígenas, realizadores africanos e latino-americanos. Com programação paralela, debates, pitchings, sessões, festas, transmissões, #IdeiasPerigosas em confronto.

Que venha Cannes 2027. Tamo só começando!

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