Mulheres ocupam as ruas do Brasil no 8M em defesa da vida, dos direitos e da igualdade

por | mar 12, 2026

Foto: Luiza Guedes

Mulheres de todo o Brasil foram às ruas, a convite da ELLA, no último 8 de março, em defesa do direito de estar vivas, com respeito e equidade, e para retomar o significado original de uma data tão importante para o movimento feminista, que ao longo do tempo foi ressignificada por uma lógica capitalista marcada pelo consumo e pela celebração superficial.

A marcha do 8M acontece em um cenário de profundas turbulências globais e nacionais. Enquanto o mundo acompanha tragédias que atingem mulheres e meninas, como a morte de 52 estudantes iranianas dentro de uma escola, o Brasil registra um aumento significativo nos casos de feminicídio. Diante desse cenário, mulheres voltaram às ruas para reivindicar aquilo que deveria ser básico: o simples direito de existir.

Fernanda Kogin, diretora criativa e doutora em Educação, presente no ato realizado em Curitiba, que teve como tema “Pela vida das mulheres, contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6×1”, destacou a importância da mobilização em um estado marcado por fortes representações políticas de direita. Para ela, a força coletiva e a união da esquerda em defesa de pautas populares são fundamentais diante do cenário atual.

“Essa mobilização é de extrema importância tanto em Curitiba quanto no Paraná como um todo, principalmente porque nosso estado ainda enfrenta muitos desafios quando falamos de violência de gênero e desigualdade. Os índices de feminicídio e violência doméstica aumentaram de forma extremamente preocupante nos últimos meses e anos”, afirma. Ela reforça ainda que “estar nas ruas é fundamental como forma de resistência, fortalecimento e reflexão coletiva. Também é uma maneira de pressionar o poder público para que políticas de proteção, segurança e acolhimento avancem de forma concreta na cidade e no estado”.

Foto: Fernanda Kogin

Ao longo das caminhadas, diversas pautas foram levantadas. Entre elas, destacou-se o fato de o Brasil ser o 5º país que mais mata mulheres no mundo e também ocupar o 4º lugar em índices de casamento infantil. As manifestações também denunciaram violações recentes de direitos, como a decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que validou o casamento de uma criança de 12 anos sob a justificativa de constituição familiar. A marcha defendeu a liberdade, a diversidade e o direito das crianças de existirem e terem suas infâncias preservadas, além de expor os absurdos que atingem mulheres e crianças em contextos de guerra.

A mobilização reuniu diversos movimentos e coletivos de mulheres, cada um trazendo suas pautas e denúncias por meio de cartazes, banners, adesivos e materiais impressos. O ato se consolidou como um espaço de escuta, denúncia e reivindicação de direitos, articulando pautas regionais e nacionais. Estiveram presentes movimentos feministas, mulheres negras e indígenas, sindicatos de professores, trabalhadoras, estudantes, aposentadas e diversos outros coletivos sociais.

Em Maceió, o ato aconteceu na Praça Sete Coqueiros, localizada no bairro Ponta Verde, um dos principais pontos turísticos da cidade, e reuniu pessoas de diversos movimentos, instituições e secretarias. A mobilização contou com apresentações de cantoras progressistas, carro de som e ampla representatividade de diferentes segmentos sociais, incluindo lideranças de religiões de matriz africana e integrantes do movimento de combate à transfobia. Além das pautas centrais lideradas pelas mulheres, também estiveram presentes reivindicações como a luta pelo fim da escala de trabalho 6×1. 

Para Luiza Guedes, estudante de jornalismo, a força da mobilização em uma das cidades mais conservadoras do Nordeste foi marcante. “Saber que ainda há tantas pessoas dispostas a lutar pelos seus direitos e pelos direitos dos outros é, com certeza, um recado claro e direto para aqueles que acreditam que as mulheres vão abaixar a cabeça diante das atrocidades que vêm acontecendo nos últimos meses. Ir às ruas é sinônimo de resistência e, por isso, é tão importante para a sociedade.”

Foto: Elineudo Meira (Chokito)

As ruas do país foram ocupadas por diversidade, luta e pautas que beneficiam a sociedade como um todo. A sensação compartilhada por muitas das participantes foi unânime: força, orgulho e acolhimento. A compreensão de que o machismo não é um problema apenas das mulheres e precisa ser combatido coletivamente foi abraçado na marcha deste ano, a quantidade de homens que aderiram ao movimento cresceu e superou, de forma positiva, as expectativas de muitas mulheres presentes.

Fernanda Kogin compartilhou que, em Curitiba, se surpreendeu com a quantidade de homens e crianças presentes nas ruas, o que, segundo ela, demonstra uma ampliação desses debates para além da bolha militante que costuma participar dos atos. “Também chamou atenção a diversidade de pautas debatidas e denunciadas durante a marcha”, afirmou. Em outra região do país, no Nordeste, o sentimento foi semelhante. Luiza Guedes destacou que “havia a presença de homens e parceiros das mulheres que estavam lá, algo que considero muito relevante porque, vivendo em sociedade, não são apenas as mulheres que precisam lutar pelos nossos direitos, o coletivo precisa se unir. São direitos humanos básicos”.

Um pouco mais ao sul, em Campinas, a psicóloga Natália Brambilla também relatou surpresa com a presença masculina na mobilização. “Me chamou bastante atenção a presença de várias frentes de luta em prol de um objetivo tão importante quanto o proposto pela marcha das mulheres. Notei também a presença de homens no ato, o que fortalece a luta e nos dá esperança de que, pelo menos alguns deles, têm se movimentado e feito sua parte nessa causa.”

Natália também destacou o contexto histórico e social de sua cidade. Segundo ela, Campinas “tem a história marcada pelo racismo e pela escravidão, e sabemos que as mulheres foram, e ainda são, profundamente afetadas por essas questões. Acredito que a existência da marcha e a presença das mulheres nesse momento fortalecem essa luta”. A psicóloga também chamou atenção para o cenário atual de violência de gênero na região. “Campinas tem sido palco constante de casos de feminicídio. Só em 2025 foram registrados 24 casos, um número bastante expressivo. Ir para as ruas é uma forma de gritar a nossa indignação e nosso repúdio diante de tudo isso”, explica.

Foto: Safira Bezerra

Em Brasília, o distrito politicamente mais importante do país, mais de mil pessoas ocuparam o centro da capital em uma mobilização que reuniu, além da marcha, rodas de conversa, oficinas, apresentações culturais e falas de movimentos sociais. A ouvidora do Ministério das Mulheres, Ana Paula Inglêz, destacou a importância da mobilização. “O ato foi muito importante. É um marco de apoio às mulheres que sofrem violências e de mobilização social. A relevância do ato ultrapassa o momento de sua realização, pois diversas redes de luta pela garantia dos direitos das mulheres são ativadas e fortalecem novas articulações”, afirmou.

As mobilizações feministas que ocorrem no dia 8 de março não são episódicas ou pontuais. Elas representam o encontro de mulheres, coletivos e iniciativas que, ao longo de todo o ano, atuam de forma constante na defesa dos direitos das mulheres e na promoção de pautas fundamentais, como a maternidade, o reconhecimento do cuidado como trabalho, o direito à educação, a liberdade sexual, entre tantas outras reivindicações históricas do movimento.

A marcha das mulheres de 2026 foi um ato de resistência e também a prova de que, diante de momentos difíceis, o movimento se fortalece e se organiza para acolher e mobilizar. Ocupar as ruas também significa ocupar territórios, tornar visíveis vozes historicamente silenciadas e levantar pautas que muitas vezes não encontram espaço no debate público. Mulheres de todo o Brasil e de diferentes partes do mundo se uniram em uníssono, para além das barreiras físicas, para afirmar seus corpos vivos, protestantes e sonhadores.

Foto: Antonio Bufalo

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